HISTÓRICO
DANÇAS
CIRCULARES (E) SAGRADAS
Por
que a Roda?
A primeira formação que o ser humano adotou no desenvolvimento
da vida grupal e social foi a roda. Culturas antigas e culturas ligadas
à terra perceberam a especialidade da forma circular para o estar
e fazer junto.
Nela passaram a representar os ciclos da natureza: o rítmo das
estações, o tempo dos cultivos (semeadura, crescimento,
maturação e colheita); o pulsar dos movimentos do sol;
da lua; das estrelas e dos planetas no céu; o ritmo da respiração
e dos batimentos cardíacos; a vida e a morte.

Roda de Addaura – 8000 a C
Adotaram-na em seus rituais de passagem (nascimento, iniciação
à maioridade, união matrimonial, morte), em celebrações,
ocasiões de reverência, temor, louvor, gratidão
e oração à terra e à(s) divindades(s).
O círculo é uma forma geométrica especial, por
simbolizar a perfeição e a plenitude que o ser humano
busca atingir. Na circunferência há “n” pontos
que distam igualmente do ponto central. Todos os pontos – ou todas
as pessoas que neles se encontram voltadas para o centro – têm
a visão de todos os demais da roda e todos são igualmente
importantes na composição final que é o círculo.
Este contém o vazio, que ao mesmo tempo em que garante a distância
entre as pessoas, é o vazio através do qual elas estão
unidas e de onde pode emergir a criação feita por todos.
Apenas compor a circunferência da roda já constitui uma
criação, num espaço diferenciado e, possivelmente,
sagrado.
A palavra hebraica “shalom”, que significa paz, contém
a mesma raiz que compõe a palavra “shalem” e “shelmut”,
que significam estar completo, inteiro, em unidade e em paz.
O círculo representa a aspiração humana a essa
paz completa. Estar em unidade, ser um e inteiro consigo e com o criador,
estar no divino, em Deus.
Religião e ciência nos falam da separação
do homem do seu estado de unidade, seja através da queda do paraíso,
seja ao nascer, por ocasião da saída do aconchegante útero
materno nutridor e todo poderoso.

Dança do Salgueiro – 1634
O homem trilha sua vida aspirando retornar ao estado de plenitude total.
Uns se apóiam na religião para se re-ligar, outros esperam
que o parceiro lhes traga este aconchego e suprimento através
do amor, do ato sexual, ou de ambos; há os que se utilizam das
drogas, outros que ficam em ação e trabalho compulsivo
para nunca sentir o estado de falta. Muitos vivem a combinação
de vários recursos para acreditar que são plenos, ou chegar
o mais próximo deste estado. Deseja-se estar num tempo/espaço/vivência
com a unidade permanente.
Por sua vez as Danças Circulares também brotam dessa aspiração
humana de sair da separatividade e da falta e unir Céu ( inspirador,
mágico, espiritual, divino) e Terra ( humano, material, terreno)
em seu ser, no seu centro, em seu coração, de forma prática
e palpável, dançando.
As Danças Circulares resgatam a inspiração do homem
primitivo em sentir a energia criadora da vida dentro de si, deixando
brotar o movimento, rítmo, som, música, dança,
e fazê-lo em círculo, em interação com os
outros membros da tribo; ao mesmo tempo dão continuidade a um
fio que jamais cessou de existir na história da humanidade: dançar
e interagir grupalmente.
Uma forma de resgate, continuidade e criação desse tipo
de vivência teve início por volta da década de 60,
por via de duas iniciativas em continentes distintos, dando origem,
por um lado, ao que se passou a chamar Danças Circulares Sagradas
e, por outro, Danças da Paz Universal.
Danças
Circulares Sagradas
O movimento denominado Danças Circulares Sagradas nasceu a partir
de um bailarino e coreógrafo que viveu na Alemanha, Bernhard
Wosien, que na década de 50 se propôs a pesquisar e vivenciar
antigas rodas da Europa Oriental. Encontrou ali raízes antigas
da arte de re-ligar o ser humano, a “meditação através
da dança, como um caminho para dentro do silêncio”.

Bernhard Wosien
Em meados da década de 70 ele foi convidado pela então
jovem comunidade escocesa de Findhorn, para compartilhar as danças
de roda que vivenciou e as danças que coreografou voltadas para
o mesmo fim: re-ligar,meditar e transformar, em ação grupal.
Findhorn, uma comunidade alternativa conhecida na década de 60
pelos “repolhos gigantes” hoje é uma Fundação,
em forma de vilarejo, localizada nas proximidades do Mar do Norte –
Escócia, com extenso programa de cursos voltados para o desenvolvimento
humano. Ali vivem pessoas de todos os continentes, reunidas em uma experiência
ímpar de amorosa convivência e de interesse comum pelo
estabelecimento de valores mais humanos na vida pessoal e coletiva.
Atualmente, as Danças Circulares Sagradas constituem parte integrante
da vida comunitária do lugar, praticamente sendo incluídas
em todos os programas de cursos oferecidos ao longo do ano.
Tendo como forma base o círculo e o fazer em conjunto, as danças
foram rapidamente abraçadas pela meta comunitária voltada
para “One Earht” Dali se difundiram pelo mundo, num processo
que envolve resgate e criação contínua do espaço
sagrado, espaço/tempo diferenciado, que proporciona ao ser humano
condições para recordar o estado de unidade, vivenciando-o
em seu próprio corpo, em movimento, com música, com arte,
na sintonia grupal.
Um espectro de danças derivou a partir daí, disponíveis
para quem quiser entrar na roda: danças tradicionais reavivadas
em sua forma original, danças que captam a essência de
movimentos típicos de determinada cultura e os trazem de forma
simplificada e acessível a quem quiser se juntar, danças
de caráter meditativo ou lúdico coreografadas para músicas
diversas - eruditas ou folclóricas; danças-oração
que associam gestos simples a cantos religiosos; danças cujas
coreografias têm como fonte de inspiração as árvores
e flores e que propiciam a vivência corporal das qualidades associadas
às plantas
(incluem
aqui danças que fazem referência às essências
florais).
Esse tipo de dança é geralmente acompanhada de música
gravada e para tanto a disponibilidade de um aparelho de som se faz
necessária. Mas, ocasionalmente, podemos contar com uma pequena
banda para tocar ao vivo, o que faz uma diferença muito positiva.

Roda de Danças Circulares na comunidade
de Findhorn
Danças
da Paz Universal
Na mesma época em que se desenvolvia esse trabalho com as Danças
Circulares Sagradas na Europa, na América do Norte, um mestre
sufi - Murshid Samuel Lewis - plantava as bases para o que mais tarde
se denominaria “Danças da Paz Universal”. Ele acreditava
que “a verdadeira religião deve ser prática e expressar
a profunda unidade que se encontra por trás de todas as tradições”.
Com o mestre sufi Azrat Inayat Khan, que trouxe o movimento sufi para
o Ocidente, Lewis (ou sufi Sam, como era conhecido) aprendeu que a mensagem
espiritual podia ser difundida não apenas pelas palavras, mas
também através da música e do som.

Samuel Lewis
De Ruth Saint Denis, sua professora de dança sagrada e precursora
da Dança Moderna (com quem estudaram Martha Graham e Doris Humphrey),
Lewis captou o impulso para criar uma forma de dança sagrada
que pudesse ser compartilhada em grupos e que não fosse performática.
A respeito de Ruth Saint Denis, Lewis dizia: “ela possui a faculdade
de trazer música e dança diretamente do cosmos, do coração
de Deus”.
Unindo práticas de diversas ordens sufis; os ensinamentos de
Azrat Inayat Khan com o ideal de fraternidade entre os homens e aproximação
das tradições religiosas, e a dança espiritual
de Ruth Saint Denis, Lewis criou os fundamentos das Danças da
Paz Universal.
O contexto era de um mundo que vivia as tensões da Guerra Fria,
em que a juventude expressava sua rebeldia às formas de comportamento
e ao sistema político, enquanto começava a projetar suas
esperanças e idéias para a virada do milênio.
Foi entre os jovens hippies que sufi Sam agregou os primeiros seguidores
de suas práticas, mas sempre deixou claro que a prática
espiritual - dançar, caminhar, meditar e cantar - não
deveriam ser usadas como mais uma forma de droga que brecasse o crescimento
espiritual.
Acreditava, porém, no poder transformador da alegria e da devoção
num contexto universal, salientando a necessidade de se estar bem enraizado
na terra para se fazer das danças algo mais do que um “estado
elevado temporário”.
As Danças da Paz Universal consistem em movimentos e gestos feitos
em conjunto por todos os participantes, aliados a cantos de frases expressivas
de diferentes tradições espirituais do mundo.
São frases mântricas, ou frases que captam a essência
de determinada tradição, ou frases que evocam o ideal
universal de paz e fraternidade entre os homens.
Os movimentos e gestos são bem simples e sintetizam uma linguagem
corporal/grupal universal que se encontra em vários locais da
Terra. Por exemplo, elevar mãos e braços ao céu
invoca abertura para a divindade, com respeito e louvor; palmas em direção
ao solo indicam reverência e contato com a terra, mãos
dadas na roda indicam o estar juntos e o potencial de amizade; braços
nos ombros das pessoas ao lado simbolizam a fraternidade entre os homens.
A roda se move para o centro do círculo, ou para fora, no sentido
dos ponteiros do relógio, ou no outro, ora as pessoas estão
de mãos dadas na roda, ora encontram-se com parceiros dispostos
na circunferência da roda para se trocar cumprimentos, bênçãos
e depois seguir adiante com um novo parceiro.
A prática das Danças da Paz Universal é dirigida
por Saadi (Neil Douglas Klotz) que procura recontatar a essência
das tradições do Oriente Médio (tradição
crosta, judaica, islâmica, persa, egípcia, babilônica,
etc), para levar a mensagem e prática da paz e respeito pela
unidade dentro da diversidade.
Faz parte deste trabalho um resgate profundo das palavras de Jesus em
aramaico – língua original em que ele proferiu suas mensagens
– em especial a retomada profunda do significado da oração
do Pai/Mãe Nosso(a), através das palavras, canto e dança
inspirados e coletados a partir das formas de oração existentes
no Oriente Médio.
As Danças da Paz Universal são sempre cantadas pelo grupo
todo produzindo o som/vibração que acompanha os passos
e movimentos simples. É comum essas danças serem acompanhadas
por instrumentos que auxiliam na marcação do rítmo,
sendo freqüente o uso do tambor, violão ou chocalho.

Roda de índios Xavantes - Brasil
Danças
Circulares e da Paz Universal no Brasil no Brasil
No Brasil ambos os movimentos encontraram eco e são conhecidos
como Danças Circulares ou Danças Circulares Sagradas.
Em nosso país vem se somando a este movimento uma parcela bem
brasileira, formada pelas danças folclóricas feitas em
roda e também pelas danças e brincadeiras de roda. Estas
estão sendo reavivadas por educadores, folcloristas e/ou integrantes
do movimento, com o intuito de intensificar a dança de roda no
universo infantil, introduzindo, inclusive, músicas do nosso
repertório popular, tanto antigo como atual.
De modo geral, as Danças Circulares têm sido praticadas
com diferentes fins, e em ocasiões diversas como forma de crescimento
individual; como caminho espiritual; uma forma de vivenciar o lúdico;
na celebração de algum evento; como meio de harmonização
grupal em apoio a alguma atividade que se deseja realizar; como instrumento
terapêutico e de cura; no trabalho com idosos; com pessoas diferenciadas;
como instrumento educativo para a vivência de princípios
éticos nos âmbitos pessoal, grupal, social e planetário
e, por fim, vêm contribuindo também no meio empresarial
como instrumento de integração, sociabilização,
centramento, ludicidade para o grupo, em sintonia com o propósito
da empresa.
As Danças Circulares vêm se espalhando pelas principais
capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador,
Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Belém) e também
pelo interior.
Para dançar não são necessárias habilidades
especiais. Basta querer compartilhar da alegria de se dar as mãos
na roda, com disponibilidade para ser mais um elo que dá, recebe
e contribui para a criação grupal, com seu modo único
e original de ser.

Dança da Paz Universal